Sobre Trancoso: o que ninguém fala

por | 28/05/2021

Nesse texto você vai saber o que ninguém fala sobre Trancoso: uma terra tomada de estrangeiros e forasteiros, sustentada basicamente pelo turismo. Essa também é o lugar de gente simples: de marisqueiras, guias turísticos, cozinheiros, de artesãos e pescadores.

São essas pessoas que permanecem, entre idas e vindas e temporadas de sol e de chuva. Lá, é possível encontrar pessoas extremamente acolhedoras e, acima das dificuldades, de bem com vida.

Por dentro de Trancoso
Trancoso é autêntico, alegre e bem humorado

Curiosidades sobre Trancoso

Trancoso possui um dos mais novos teatros do Brasil, sendo ele o único no mundo a possuir duas plateias sobrepostas – uma superior aberta e uma inferior fechada, ambas com capacidade para 1.100 lugares. Foi projetado pelo arquiteto luxemburguês François Vallentiny.

Leia também: Tudo sobre sua próxima viagem: Trancoso

A cidade pode ser considerada uma das vilas jesuítas mais antigas do mundo. O distrito era, na realidade, uma aldeia indígena chamada de São Sebastião dos Índios, criada cerca de 86 anos depois da chegada dos portugueses no Brasil. Ainda hoje, sedia uma aldeia Pataxó.

Aonde mais é possível fazer cavalgadas pela areia da praia? Sim, deve haver outros lugares, mas não é algo tão comum de se presenciar: Trancoso é um misto de região litorânea com cidadezinha do interior.

A cultura da cidade
Índios da Tribo Pataxó

Vila Quadrado em Trancoso

Na Vila do Quadrado, fala-se muito de uma figura, considerada responsável pela tradicional Festa de São Sebastião. O seu nome é João Dançador, baixinho e galanteador. Ficou famoso por sua disposição em dançar em cada edição dessa festa como se fosse sua última. Era casado com Carmosina e, no Quadrado, criou seus muitos filhos. Não há quem não tenha ouvido falar dele.

De acordo com o The Piauí Herald, jornal fictício da internet, a UNESCO reconhece Trancoso como a maior colônia paulista fora do Japão. Na verdade, isso é uma brincadeira com o fato dela ser um dos destinos mais apreciados e frequentados pelos paulistas, mas o lugar é invadido todos os anos por gente de todo o mundo.

Mesmo sendo uma das localidades mais visitadas, a rota turística não costuma sair muito do Quadrado, com exceção de Caraíva.

Conversa com Nativos

Alguns nativos dizem que preferiam a Trancoso de antigamente. Tanto Foguinho quanto Nel contaram, orgulhosos, como tudo era mais simples.

A luz demorou mais do que o usual para chegar por lá: pouco mais de 30 anos atrás. E até pouco tempo a alimentação se limitava praticamente a produtos de culturas próprias: peixes, inhame e coco.

Mesmo assim, e apesar de todas as comodidades que a civilização trouxe, eles parecem sentir sempre muita falta do passado.

Nel Estrela D’Água

Ótima recepção em Trancoso
Nel Estrala D’Água

O trancosense Nel demonstra morrer de saudades daquele tempo na Vila do Quadrado. Ele diz que os dias hoje são bons, mas logo se mostra bastante nostálgico: fala de como era a tradicional festa do Bumba Meu Boi, antes de começar a receber uma enxurrada de turistas.

Em tom de tristeza, ele relembra: “a região do quadrado que não é mais quadrado, é retângulo”. Conta com saudade sobre as casinhas coloridas que antes eram habitadas por nativos, que criavam suas galinhas no quintal e que hoje deram espaço para comércios e restaurantes que antes nem existiam na cidade.

Fala das antigas brincadeiras como o baleado, a corrida de saco, a corrida de jegue e o pau de sebo. Os torneios de futebol que acabaram e a trave que assumiu apenas um papel decorativo.

Era costumeira e agradável a interação que acontecia entre os vizinhos: no final da tarde todos se encontravam na praça São João. “O povo vivia mais da pesca, o vizinho pescava hoje e dava um pouco pro vizinho e o outro dava farinha, temperinho verde, feijão. Não tinha iluminação em nada: era tudo com lampião, que tinha que abastecer com querosene. Mas era 19 horas e todo mundo já estava dormindo”.

Nel é barman e trabalha há 20 anos na pousada Estrela D’água. Entrou logo que Beth e sua irmã assumiram a pousada. Começou trabalhando como jardineiro, passou por diversos cargos: fez de tudo, e agora faz os melhores drinks de Trancoso.

Foguinho

Artesanato
Artesão Foguinho

Um típico baiano apaixonado diz: “Trancoso é uma cidade muito maravilhosa, a cidade é conhecida mundialmente. Tem muitas coisas interessantes, é só você vir pra conhecer. Venha conhecer que você não vai se arrepender”.

Foguinho é um artesão incrível e muito preocupado com o rumo que o planeta está tomando: “tudo que você hoje faz e está prejudicando a natureza, só tá prejudicando a nós mesmos e nossos filhos que vão vir aí (…) tem que cuidar da natureza”.

Ele é pai de 7 filhos e vende suas peças de artesanato no centro da cidade. Apesar da paixão frenética ele conta que preferia algumas coisas do passado, a saúde, a segurança são o que fazem ele querer voltar no tempo.

Para ele. uma pessoa que fez história na região foi Carlos Parracho, uma das personalidades que aparentemente mais deixou sua marca em Porto Seguro.

Foi um dos principais agentes no desenvolvimento da cidade: foi prefeito, duas vezes vereador, presidente da câmara e dono de uma das pousadas da vila.

A história do Brasil começa aqui!  

Foi pertinho de Trancoso, em Monte Pascoal, que Pedro Álvares Cabral chegou, no ano de 1500. Ele estava tentando chegar nas Índias (não nessas que você está pensando: era como chamavam o Oriente Médio, naquela época) e foi parar no Brasil. Ele veio com sua nau e seus 1400 homens: foi aí que começaram o capitalizar o Brasil.

Pintura histórica de Trancoso
Primeira Missa no Brasil, de Victor Meirelles (1832-1903)

Somente dois dias depois que eles chegaram, tiveram contato com os índios e rolou aquele climão: cada um achava o outro muito estranho.

Na carta de Pero Vaz de Caminha está escrito que os portugueses ficaram chocados com o fato dos índios andarem “sem cobrirem suas vergonhas” (e ali pertinho ainda resiste uma praia nudista).

Além disso, eles queriam levar uma amostra de tudo para o rei de Portugal: papagaios, cascavéis, arcos e flechas, a tinta que eles passavam no corpo e principalmente um montão de pau-brasil.

Quatro dia depois da chegada do Pedro, sua turma e o Frei Henrique de Coimbra celebraram a primeira missa porque queriam catequizar os índios: nesse dia começou o desmatamento criminoso da Mata Atlântica, depois que eles derrubaram uma árvore para construir uma cruz. Já que não tinha como tirar uma selfie: Victor foi lá e pintou um quadro.

Espero que vocês tenham gostado e se divertido com esta última parte da série sobre Trancoso. Foi um enorme prazer falar dessa viagem pra vocês.

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